sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Cotas: o que é isso?







Cotas:
o que é isso
?

“Eu
não concordo com as cotas”. “O negro não tem capacidade”. “Estão tentando
diminuir o negro”. “Isso, sim, é discriminação”. Piadas, ironia, comentários de
pessoas que não conhecem ou não reconhecem a história do Brasil é o que mais
escuto nos últimos tempos.

O
fato é que precisamos conhecer a história do Brasil: o negro começou a vir para
o Brasil para trabalhar como escravo, logo após o descobrimento em 1530. Para a
sociedade da época, ele era uma mercadoria que deu muito lucro para a classe
dominante e ajudou a construir a economia do nosso país. E como objeto, não
tinha direito algum, apenas, tinha que sobreviver, trabalhar e dar lucro.

Os
negros eram trazidos em navios, chamados de navios negreiros, muitos não
sobreviviam nos porões desses navios, convivendo com ratos e expostos a
doenças.

... “Devido às péssimas condições de acomodação
destes navios, as crianças ficavam agitadas inquietas e doentes. Muitas morriam
ali mesmo. Para minimizar tamanho sofrimento as mães arrancavam a barra de suas
saias e criavam bonecas com tiras de pano, chamadas Abayomi significa ”ENCONTRO
PRECIOSO” e pode ser traduzida como: “Ofereço para você o melhor que tenho em
mim”... (O Transcendente, março/abril 2012, 07).

 Segundo o historiador Boris Fausto, em
História do Brasil (2002):

“A história é vital para o desenvolvimento da
cidadania porque nos mostra que, para compreender o que está acontecendo no
presente, é preciso entender quais foram os caminhos percorridos pela sociedade
brasileira; senão parece que tudo começou quando tomamos consciência das nossas
vidas.”

Talvez,
por que a abolição da escravidão foi em 1888 e já se passaram 124 anos, muitas
pessoas não entendem o porquê das cotas, pois acham que a história do negro na
sociedade começou agora, acham que ele sempre esteve em igualdade de condições
e oportunidades com o branco e teve seus direitos individuais respeitados.

Ora,
ele não era tratado como mercadoria? Logo mercadorias não possuem direitos nem
cidadania, apenas um número (no caso do escravo, uma marca) para identificá-lo.

Quem
não conhece a história, e não procura conhecê-la, acha, realmente, que a
história começou quando ele ou ela tomou consciência da sua “PRÓPRIA VIDA”. Mas
foram trezentos anos de escravidão, de cativeiro, de injustiça social, de
ideologias racistas e preconceituosas, sendo disseminadas e incorporadas como
VERDADEIRAS.

Quem
sabe, muitas pessoas que não entendem as cotas não tenham tido as informações
necessárias para entender a escravidão, não foi uma escravidão branda, as
pessoas eram educadas a considerar mais os animais do que uma pessoa negra e
isso era o certo, o justo, o “natural”.

 Não devemos julgar uma cultura fora de seu
tempo. Mas com todas as informações que temos na mídia, nos livros didáticos,
na literatura, na internet, relatos dos mais antigos, não podemos deixar de nos
envergonhar desta página da nossa história, de sermos o último país da América
a libertar os escravos e de não ter dado oportunidade para eles se inserirem na
sociedade brasileira, marginalizando-os, preferindo dar oportunidade de
trabalho assalariado para o imigrante italiano, empurrando-os para os subempregos
(engraxate, lavadeira), sem oportunidade de frequentar uma escola, de ser
instruído. Foram trezentos anos de escravidão mais cento a vinte quatro anos de
uma falsa democracia racial.

 As pessoas ainda tentam intimidar o negro
dizendo que as cotas só existem porque ele não tem capacidade de concorrer com
o branco.

 Para Piaget, todos nascem com potencialidades e habilidades para se desenvolver, mas
o meio pode ser um fator decisivo na maneira do indivíduo realizar sua
inclinação biológica
. 

Ou
seja, todos nós nascemos com aparatos para a aprendizagem, o que faz a
diferença é o quanto somos incentivados, provocados a desenvolver essas
capacidades ou habilidades.      Logo,
não se trata de capacidades, mas de JUSTIÇA SOCIAL.

Este
texto não é uma crítica às pessoas que são contra as cotas. É para as que são
contra as cotas e não possuem fundamentação teórica, ou seja, não possuem
argumentos para justificarem suas opiniões, apenas um falso liberalismo social
(racismo mascarado). “Não sou racista, afinal, eu até tenho amigos negros”.

Não
podemos esquecer que, atualmente, no Brasil, existem cotas para ingresso em
universidades públicas e particulares, de que 25% são para negros, pardos e
índios (sociedades que foram injustiçadas no passado) e os outros 25% das cotas
são destinados aos estudantes que tenham feito todo o ensino médio em escolas
públicas e cujas famílias tenham renda per capita até um salário mínimo e meio.
Ainda, o Enem será a ferramenta para definir o preenchimento das vagas
destinadas às cotas. 

Como
educadores, precisamos nos informar mais e informar os educandos sobre as
cotas, para que possam usufruir deste direito adquirido e não intimidá-los com
opiniões racistas como esta que ouvi de colegas dizendo que as cotas são um
atestado da incapacidade dos negros de concorrerem com os brancos. Isto é,
aquele, que deveria informar, rotula e, depois, queremos transformar a
sociedade? Como posso transformar, se reproduzo o preconceito me dirigindo aos
educando como aquele moreninho, escurinho, neguinho bodoso?

 A intenção não é reprimir ou condenar os que
são contra as cotas, mas lembrá-los que houve, sim, uma escravidão no Brasil,
muito violenta, por mais de três séculos e que os negros não foram libertos,
foram ABANDONADOS à própria sorte. Imagina VOCÊ sendo mandado embora de seu
emprego sem direito a nada - rescisão, seguro desemprego ou fundo de garantia
e, ainda, tendo sua casa e seus bens confiscados, imaginou? Como VOCÊ se sente?
Pois foi assim que o negro se sentiu - abandonado à própria sorte.

Posso não concordar com nenhuma das palavras que
você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las (Voltaire).

Concordo
com o pensador iluminista, mas não podemos esquecer que ajudamos a formar
opiniões e concepções, por isso, mais que dar nossa opinião, precisamos
informar, incentivar, levantar a auto-estima, valorizar a diversidade para
formarmos cidadãos autônomos e, somente depois, pensarmos em TRANSFORMAÇÂO E JUSTIÇA SOCIAL.

Autora:
Liliane do Canto